terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ainda na TP 4 – 08 de agosto

Pela relevância da temática desta TP continuamos o estudo da mesma. A intenção é criar um banco com estratégias de leitura e produção de textos. Assim sendo alguns textos foram escolhidos para serem lidos e interpretados ( na perspectiva de elaboração de questionamentos significativos para realização efetiva das leituras que se dá pela elaboração de perguntas bem alaboradas.)
Como estratégia de leitura os cursistas receberam fragmentos dos textos a serem trabalhados, e em seguida tiveram de procurar os fragmentos que completavam o texto, até que cada texto estivesse inteiro. Dessa maneira formaram-se os grupos.

Eis os textos

Texto 1

O dia em que eu mordi Jesus Cristo
Ruth Rocha

Eu estava numa escola onde não tinha aula de religião.
E todos os meus amigos já tinham feito a primeira comunhão, menos eu.

Então me deu uma vontade danada de fazer primeira comunhão. Eu nem sabia direito o que era isso, mas falei pra minha mãe e pro meu pai e eles acharam que até podia ser bom, que eu andava muito lavada e coisa e tal, e me arranjaram uma tal de aula de catecismo, que era na igreja.

Aí eu não gostei muito, que todo sábado de manhã, enquanto meus amigos ficavam brincando na rua, eu tinha que ir na tal aula. Eu ia, né, e aí eu arranjei uns amigos e tinha uma menina boazinha que vinha me buscar que ela também ia na aula e a gente ia pra igreja rindo de tudo que a gente via.

E na aula a gente aprendia uma porção de coisas, e tinha uma que eu achava engraçada e que era uma rezinha bem curtinha, que se chamava jaculatória. Eu achava esse nome meio feio, sei lá, me lembrava alguma coisa esquisita...

E o padre uma vez mostrou pra gente um livrão, que tinha uma figura com o inferno e uma porção de gente se danando lá dentro.

E a gente tinha que aprender a rezar a Ave-Maria e o Padre-Nosso e o Creindeuspadre.

E tinha um tal de ato de contrição, e uma tal de ladainha, que a gente morria de rir.
E aí a gente começou a aprender como é que se confessava, que tinha que dizer todos os pecados pro padre e eu perguntava pro padre o que era pecado e ele parece que nem sabia direito.

Quando eu chegava em casa e contava essas coisas, meu pai e minha mãe meio que achavam graça e eu comecei a achar que esse negócio de primeira comunhão era meio engraçado...

E aí o padre começou a explicar pra gente como era a comunhão e que a gente ia comer o corpo de Cristo, que na hora da missa aquela bolachinha chamada hóstia vira o corpo de Cristo.

Eu estava muito animada era com o meu vestido novo, que era branco e era cheio de babados e rendas, e na cabeça eu ia botar um véu, que nem a minha avó na missa, só que o meu era branco e mais parecia uma roupa de noiva.

E eu ganhei um livro de missa lindo, todo de madrepérola, e um terço que eu nem sabia usar, minha mãe disse que antigamente as pessoas rezavam terço, mas que agora não se usava mais...

E o dia da comunhão estava chegando e a minha mãe preparou um lanche, ia ter chocolate e bolo e uma porção de coisas, que a gente ia voltar bem depressa da igreja, que quem ia comungar não ia poder comer antes da missa. E era só eu que ia comungar.

E eu perguntei pra minha mãe por que é que ela nunca comungava e ela disse que um dia desses ela ia.

E eu perguntei por que é que o meu pai nunca ia na igreja e ele disse que um dia desses ele ia.

E aí chegou a véspera da minha comunhão e eu tive de ir confessar. E eu morri de medo de errar o tal ato de contrição e na hora que eu fui confessar mandaram eu ficar de um lado do confessionário, que é uma casinha com uma janelinha de grade de cada lado e um lugar de cada lado para ajoelhar, e o padre fica lá dentro.

Eu ajoelhei onde me mandaram e aí eu ouvia tudo que a menina do outro lado estava dizendo pro padre e era que ela tinha desobedecido a mãe dela e o padre mandou rezar vinte Ave-Marias.

Eu fiquei meio que achando que era pecado ouvir os pecados dos outros, mas como ninguém tinha falado nada pra mim eu fiquei quieta, e quando o padre veio pro meu lado eu fui logo falando o ato de contrição: eu pecador me confesso e o resto que vem depois.

E eu contei os meus pecados, que pra falar a verdade eu nem achava que eram pecados, mas foi assim que me ensinaram. E aí o padre disse uma coisa que eu não entendi e eu perguntei “o quê” e o padre disse "vai tirar o cera do ouvido”. E eu disse “posso ir embora?” e ele disse “vai, vai logo e reze vinte Ave-Marias”. E eu achei que ele nem tinha escutado o que eu disse e que ele que precisava tirar a cera do ouvido.

No dia seguinte eu botei o meu vestido branco e eu não comi nadinha, nem bebi água, e nem escovei os dentes, de medo de engolir uma aguinha.

E eu estava morrendo de medo, que todo mundo tinha dito que se a gente mordesse a hóstia saía sangue.

A igreja cheirava a lírio, que é um cheiro que até hoje eu acho enjoado.

As meninas e os meninos que iam fazer primeira comunhão ficavam lá na frente, nos primeiros bancos e davam pra gente uma vela pra segurar.

O padre foi rezando uma missa comprida que não acabava mais e às tantas chegou a hora da gente comungar e as meninas foram saindo dos bancos e foram indo lá pra frente e ajoelhando num degrau que tem perto de uma grade.

E o padre veio vindo com uma taça dourada na mão e ele tirava a hóstia lá de dentro e ia dando uma por uma para cada menina e menino.

Aí chegou a minha vez e abri bem a boca e fechei os olhos que nem eu vi as outras crianças fazerem e o padre botou a hóstia na minha língua. Eu não sabia o que fazer, que morder não podia e a minha boca estava sequinha e a hóstia grudou no céu da boca eu empurrava com a língua e não desgrudava e enquanto isso eu tinha que levantar e voltar pro meu lugar que já tinha gente atrás de mim querendo ajoelhar.

E eu nem aprestei atenção e tropecei no vestido da Carminha e levei o maior tombo da minha vida.

É claro que eu fiquei morrendo de vergonha e eu levantei e nem prestei atenção se eu tinha machucado o joelho. O que estava me preocupando mesmo é que eu tinha dado a maior mordida na hóstia.

Eu estava sentindo tudo que é gosto na boca, que devia de estar saindo sangue da hóstia, mas não tinha coragem de pegar pra olhar.

Aí eu pensei assim: “se eu não olhar se saiu sangue agora, nunca mais na minha vida eu vou saber se é verdade essa história”.

Aí eu meti o dedo na boca e tirei um pedaço da hóstia, meio amassado, meio molhado. E estava branquinho que nem tinha entrado.

E foi assim que eu aprendi que quando as pessoas falam pra gente coisas que parecem besteira não é pra acreditar, que tem muita gente besta neste mundo!

Texto 2

Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam.
Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura.
A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.
Sendo assim, fica evidente que cada leitor é co-autor. Porque cada um lê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita
.

LEONARDO BOFF em "A Águia e a Galinha"
Texto 3


Soneto de Fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Os grupos então colocaram o texto em ordem ( coerência) definiram como ele seria apresentado e ensaiaram a leitura, em seguida leram no grande grupo,concluindo a apresentação com a identificação da sequência tipológica predominante, abordagem a cerca do tema numa análise reflexiva.

Ainda em grupo propus a produção de um texto com as palavras:


MUXUANGO-HERMENEUTA-VITUPERADO-DEFENESTRAÇÃO-PERFUNCTÓRIO-FALÁCIA-IGNÓBIL-SIBILINO-UXORICÍDIO-APOPLEXIA


O objetivo é brincar com a produção textual, sem apego aos significados das palavras,numa perspectiva de sair dos exemplos engessados das redações escolares.
Ai vão as produções: o resultado é sempre um barato...

Grupo 1


MUXUANGO SOFRE APOPLEXIA
O MUXUANGO HERMENEUTA VITUPERADO DE TANTA DEFENESTRAÇÃO DECIDIU RESOLVER O PROBLEMA DO PERFUNCTÓRIO SEM TANTA FALÁCIA, DE FORMA IGNÓBIL E SIBILINO. CHEGANDO FINALMENTE AO UXIRICÍDIO, FOI DIRETAMENTE A RESOLUÇÃO DA APOPLEXIA.


Grupo: Maria Célia, Micheline, Wedna Cristina, Erivânia ( Vânia para os íntimos) e Magneide.


Grupo 2


Falácia foi à farmácia comprar um pacote de apoplexia, pois estava sentindo uma leve defenestração. No caminho encontrou Muxuango que lhe contou que o filho dele ficou de castigo na escola por fazer vários perfunctórios nas colegas.
Senhor Sibilino, o diretor da escola, um hermeneuta formado, disse que a atitude do menino merecia castigo ignóbil.
Daí Falácia, dando uma de especialista em uxoricídio, disse que a culpa era das meninas por terem vituperado o filho dele.
QUE LOUCURA... ( comentário meu)


Grupo: Ana Cristina, Erivaldo, anunciada e Nielson

Grupo 3


A perda do perfunctório
( vale fazer a antecipação da leitura - comentário meu)
Certo dia houve uma grande festa na casa do Senhor Muxuango, lá no meio do mato, onde os bichos faziam vituperados barulhos. O primeiro convidado, o Sr. Sibilino,apesar da apoplexia, chegou sorridente contado suas falácias.Contou que havia encontrado um leão quando estava a caminho e que bastou um gesto ignóbil para afugentá-lo.
_ Êta cabra mentiroso! – retrucou dona Hermeneuta, achando uma defenestração tal fato.
Estavam todos dançando quando seu Sibilino deu por falta do seu perfunctório, pois não bastasse a apoplexia, fazia duas semanas que não dormia direito com um uxoricídio incomodando a região sacra.
Seu Muxuango ficou preocupado com o desconforto do convidado e tratou logo de tomar as providências: pediu ao cantor que anunciasse no microfone a perda do perfunctório do seu Sibilino e solicitou que no caso de não encontrarem, alguém pudesse emprestar. Como recompensa ofereceu um bode gordo.
Não faltou quem quisesse procurar, e como não acharam, afila para o empréstimo foi grande, cabendo a seu Sibilino escolher que perfunctório queria usar.


Grupo: Fernanda, Kátia,Elioneide, Carmelinda( Carmem para os íntimos) e Cássia.

Terminada as apresentações, o melhor momento:> conferir os significado das palavras esquisitas.
Muxuango = caipira
Hermeneuta = estudo das leis
Vituperado = mal falado
Defenestração = jogar pela janela
Perfunctório =algo superficial
Falácia = mentira
Ignóbil = desprezível
Sibilino = enigmático
Uxoricídio = ato de matar a esposa


Após muita risada, refletimos o quanto essa atividade é apropriada para o trabalho com o dicionário e consequentemente para ampliação do vocabulário.


Pela importância e pertinência temática do texto de referencia da unidade 15 pag. 147 e 148 da TP 4, realizamos a leitura e respondemos oralmente os questionamentos pag. 149 e 150.
É de fato um desafio fazer com que os nossos alunos sejam leitores e produtores de textos e se apropriem da leitura e da escrita. No entanto o próprio texto nos aponta caminhos para amenizarmos essa situação que nos angustia.


Ainda falando sobre gêneros e tipos textuais apresentei os slides sobre Intergenericidade, Heterogeneidade tipológica, Intertextualidade, Suportes, Mecanismos lingüísticos, Domínios discursivos.


Encerramos com os relatos do Avançando na Prática


O Avançando na Prática, dessa vez, foi um só, pois assim orienta a TP 4, oficina 14.
Trabalhando com o poema Cidadezinha Qualquer.
Em breve as produções de alguns alunos.

Dica de leitura:
Esse livro de Ruth Rocha é fantástico, tem histórias comuns, contadas com muito humor.É ideal para trabalhar com alunos de 5ª série.










terça-feira, 4 de agosto de 2009

Iniciando o estudo da TP 4 –
24 de julho


Sendo o tema da TP 4 Leitura e Processos de Escrita I, a oficina foi iniciada com a declamação de um belo trecho da obra de João Cabral de Melo Neto.A princípio comuniquei aos cursistas que o tema do nosso encontro seria MORTE e VIDA: uma reflexão sobre o dom da vida.Assim declamei, sem papel, vale salientar, três cenas do Poema Morte e Vida Severina.


O meu nome é Severino,
como não tenho outro da pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria.
Como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel,
que se chamou Zacarias,
e que foi o mais antigo senhor
desta sesmaria.
Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da Serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos
já finados,Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença)
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

_ Seu José Mestre Carpina
Que diferença faria
Se ao invés de continuar
Tomasse a melhor saída
A de saltar numa noite
Fora da ponte da vida?

— Severino retirante,

deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela
é esta que vê,severina;
mas se responder não pude
a pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim
pequena a explosão,
como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

Logo em seguida apresentei em slide o texto escrito por Pedro Bial sobre a morte de Bussunda, um dos integrantes do Programa Casseta & Planeta.

A morte por Pedro Bial

Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do “Casseta & Planeta”deram seus depoimentos. Parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada. Estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena.Mas nada acontecia ali de risível, era só dor e a perplexidade,que é mesmo o que causa em todos os que ficam.A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte, por si só, é uma piada pronta. Morrer é ridículo. Você combinou de jantar com a namorada,está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório,colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente?Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer.A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente… De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway,numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um chiste.Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério?Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo? Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.
Por isso viva tudo que há para viver.Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida…Perdoe…. Sempre!!!”

A intenção ao apresentar os dois textos era principalmente promover um momento de deleite com as leituras, evidenciando que a estratégia de ler para os alunos fazendo opção por recitar ou declamar, como foi feito com Morte e Vida Severina, incentiva e aguça a curiosidade de ler a obra completa e apresentando outro texto, pertencente a outro gênero e com a mesma temática faz com que haja identificação de intertexto.Quanto ao tema é importante aproveitar as leituras para uma reflexão sobre o dom da vida e isso fica bem claro na finalização dos dois textos: O poema é finalizado com uma resposta de José às lamentações de Severino. Ele fala que é difícil defender a vida apenas com palavras, mas a própria vida responde com sua presença (o nascimento da criança). A melhor resposta é a explosão da vida, ainda que seja uma vida Severina e o texto de Bial termina com uma sequência tipológica injuntiva:
Viva tudo que há para viver.Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da Vida…Perdoe…. Sempre!!!”

Terminado o momento das falas reflexivas, adentramos no estudo sobre Letramento e Alfabetização, a princípio ouvindo uns aos outros sobre o que cada um entende do assunto e em seguida apresentação dos slides com abordagens da escritora Magda Soares. O tema sem dúvida é polêmico e desafiador, foi dito por todos que há uma dificuldade muito grande de se alfabetizar letrando, porém o importante, disseram os professores, é que estamos buscando meios para vencer este desafio e um dos caminhos é a participação no Programa Gestar II.

Dando continuidade partimos para os relatos do Avançando na Prática.

Para realização da oficina propriamente dita propus uma dinâmica para divisão de grupos:
Cada cursita recebeu cartõezinhos diferentes, uns com poemas, outros com nomes de poetas e poetisas, outros com perfil dos escritores dos poemas, outros ainda com nomes de escolas literárias a qual pertencia os poetas. Assim tínhamos grandes poetas e magníficas poesias, neste caso: Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.
O desafio era agrupar poeta-obra-perfil- escola literária. Formados os grupos eis a proposta de trabalho:

Planejar uma aula com o poema Cidadezinha Qualquer

Essas são as sugestões dos grupos:

Proposta para alunos de 5ª série

1.O texto seria dramatizado com fantoches, de maneira que cada grupo apresentaria o poema com um fantoche à escolha,podendo ser um menino, um animal, uma mulher, um homem.
Alguns questionamentos seriam feitos:
a) O que você sentiu ao ler o poema?
b) Descreva a cidadezinha segundo a sua visão.
c) Em sua opinião, o que o poeta quis dizer com o último verso “ ETA vida betsa meu Deus!”

Grupo:
Maria Carmelinda, Micheline Moraes e Magneide Viana

Proposta para alunos de 7ª série

2.A turma seria dividida em grupo para realização da leitura do poema.Em seguida seriam entregues algumas questões para serem respondidas e posteriormente socializadas no grande grupo.

a) O texto retrata a vida em uma cidade pacata, sem progresso, onde todos vivem de maneira simples e rudimentar, sem nenhuma perspectiva de mudanças.De acordo com o texto,relate as possíveis dificuldades dos habitentes dessa cidade.
b) O que há de semelhante e de diferente entre a cidade em que vocês moram e a cidade do texto?
Quanto aos aspectos gramaticais seriam explorados os verbos e a função que desempenham no contexto do poema.

Quanto aos aspectos estilísticos seriam observados a forma de apresentação do texto.

As sequências tipológicas também seriam identificadas para classificação do texto quanto ao tipo.

Grupo: Rossana, Erivânia e Cristiane

Proposta para alunos de 8ª série

3.A estratégia de leitura seria um jogral, concluindo com o último verso em uníssono.

Logo em seguida os grupos responderiam por escrito as seguintes questões:

a) De acordo com o poema, como é a cidade descrita?
b) Explicitem a opinião do autor a respeito da cidade.Vocês compartilham da mesma opinião? Justifiquem.
c) Quais as semelhanças e diferenças existentes entre a cidade descrita no poema e a sua cidade?

Grupo: Fernanda Cavalcante, Kátia Jumária, Willian Demétrio e Nielson Siqueira


Finalizadas as apresentações fizemos uma breve avaliação oral da oficina.

Síntese da avaliação: A oficina trouxe sugestões inovadoras de como trabalhar de maneira dinâmica e prazerosa a leitura com nossos alunos. O Gestar tem aberto novos horizontes.

Encerrando com muito, mas muito humor...

A declamação do poema Morte e Vida Severina incentivou tanto, que o professor Nielson Siqueira resolveu encerrar a oficina declamando o poema O Cume.Só pra descontrair.Vale a pena ler e vale mais a pena ainda dar boas risadas


POEMA DO CUME

No alto daquele cume

Plantei uma roseira

O vento no cume bate

A rosa no cume cheira.

Quando cai a chuva fina

Salpicos no cume caem

Formigas no cume entram

Abelhas do cume saem.

Quanto cai a chuva grossa

A água do cume desce

O barro do cume escorre

O mato no cume cresce.

Quando cessa a chuva

No cume volta a alegria

Pois torna a brilhar de novo

O sol que no cume ardia!"

ÓTIMO TEXTO PARA TRABALHAR CACOFONIA.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O Grupo de Língua Portuguesa tem um Blog

DESBRAVADORES DA LÍNGUA, nele encontramos os textos produzidos e textos que achamos interessantes.Visite-nos
gestarsbu.blogspot.com








Gestar II em São Bento do Una - Compromisso e Motivação
Registrando as oficinas

O primeiro encontro com os cursistas foi de muita expectativa, todos já tinham perguntado por várias vezes quando se daria o início do Programa,pois bem o nosso primeiro encontro aconteceu no dia 02 de maio, pela manhã.
No momento inicial recepcionamos, digo recepcionamos porque o formador de Matemática realiza os encontros nas mesmas datas e horários da turma de Língua Portuguesa, com a exibição do vídeo “Os Melhores do Mundo” cena Superação. O resultado foi o esperado: Descontrair, fazer rir uma e promover uma reflexão acera da importância de se ter força de vontade e superar as dificuldades pessoais e profissionais e pegando a deixa aproveitamos para parabenizarmos o esforço de cada um em participar do Programa mesmo sendo aos sábados, dia de descanso.
Dando continuidade apresentamos os slides explicitando os detalhes do Programa Gestar II, em seguida entregamos o material,TPs e AAAs para apreciação.Foi unânime a opinião de que o material e a metodologia do Programa atende completa- mente as necessidades exigidas na prática docente.Após a apresentação e encerrada as falas paramos para um lanche.
No segundo momento dividimos as turmas para que pudéssemos tratar das especificidades da área. Assim foram apresentados os temas de cada TP e simultaneamente eram feitas considerações sobre a relevância de cada um; essa discussão levou tempo e foi muita proveitosa uma vez que oportunizando a fala ficava cada vez mais evidente os anseios, dificuldades e curiosidades do grupo.Logo em seguida, o calendário das oficinas foi entregue para que todos se organizassem ao longo do curso e evitassem ao máximo faltar aos encontros.
Bem, não podemos considerar esse primeiro encontro como uma oficina propriamente dita, mas com certeza foi de grande importância para a socialização do grupo que demonstrou motivação em fazer parte do GESTAR II.

Oficina 5 – unidade 10

O segundo encontro aconteceu no dia 09 de maio de 2009, quando iniciamos o estudo da TP 3, conforme havia sido explicado anteriormente iniciaríamos com esta TP pelo tema que serviria de base para todas as TPs:Gêneros e Tipos Textuais.
A exemplo de como as unidades eram apresentadas durante os encontros de formadores se deu também nos encontros dos cursistas.A cada slide apresentado era dado espaço para observações e questionamentos.Foi muito interessante a discussão sobre gêneros emergentes,constatou-se a importância de se estudar vários gêneros, sejam formais ou informais,com alunos para que a leitura e a escrita tenham de fato uma função social.
O primeiro texto apresentado foi “Um novo José” com o objetivo de demonstrar que um texto pode e muitas vezes é um intertexto e mais, que um gênero pode não ter uma determinada propriedade e ainda continuar sendo aquele gênero. Neste exemplo temos um gênero funcional (artigo de opinião) com o formato de outro (poema ).
O segundo texto trabalhado foi “Poema tirado de uma notícia de jornal” de Manuel Bandeira, com a leitura deste iniciamos a análise do que é um texto literário e já demos início aos objetivos da Unidade:
n Distinguir as características de gênero literário e de gênero não-literário;
n 2- Caracterizar gênero poético, de acordo com a função estética da linguagem;
n 3- Caracterizar uma das formas de realização do gênero poético: o cordel.

Em seguida mostrei um texto elaborado por mim, de mesmo conteúdo para que após as comparações houvesse a possibilidade de classificação de gênero em literário ou não-literário.

JORNAL GESTAR NOTÍCIAS

Homem é encontrado morto na Lagoa Rodrigo de Freitas. Policiais foram chamados na manhã dessa sexta-feira para retirada de um corpo que boiava na Lagoa Rodrigo de Freitas. O homem, segundo informações, era morador Do morro da Babilônia.

Para o estudo sobre Tipos Textuais apresentei uma tabela com os tipos e os gêneros pertencentes a cada um e após as observações do grupo propus a leitura do texto “A pesca” de Affonso Romano de Sant’Anna e em seguida solicitei que quatro grupos fossem formados para realização da seguinte atividade: Reescrever o texto em:
n Prosa narrativa
n Prosa descritiva
n Prosa Injuntiva
n Prosa dissertativa

Eis as produções:

Produções a partir do texto “A pesca” de Affonso Romano de Sant’Anna


PROSA DISSERTATIVA

Em um país tropical em que o anil do céu se destaca, Vê-se no silêncio do mar uma prática que vem se tornando cada vez mais comum: a pesca predatória que degrada a fauna marítima causando desequilíbrio ambiental.
A falta de conscientização das pessoas tem contribuído para tal realidade, onde se nota um completo descaso quanto ao uso correto dos equipamentos e até mesmo o respeito e cuidado com os peixes.
A pesca esportiva praticada por amadores revela o despreparo, ignorância, e consequentemente a crueldade a estes animais, que por vezes ao serem devolvidos ao mar acabam morrendo devido aos graves ferimentos.
Um problema gera outro, esses peixes são levados pelas ondas até a areia causando a poluição das praias.

Maria Célia, Cássia,Willian e Nielson





PROSA INJUNTIVA

Como fazer uma boa pescaria

Para ter uma pescaria bem sucedida escolha um dia de céu azul e prepare o seu anzol, não se esqueça da isca!
Deixe suas preocupações de lado: nada de ficar marcando o tempo e, em silêncio, lance o anzol com a agulha na posição vertical, deixando-a mergulhar na água.
Quando o anzol perfurar a garganta do peixe, arranque-o da água e retire-o.
Agora é só tratá-lo e degustá-lo curtindo a areia e o sol.

Erivania Barbosa, Elioneide , Wedna Cristina, Anunciada e Fernanda.



PROSA NARRATIVA

Em um lindo dia ensolarado de céu azul-anil, o pescador resolveu sair de casa, em silêncio, aproveitando o bom tempo que pairava sobre a praia, para fisgar um peixe.
Chegando à beira-mar, encaixou com cuidado a isca na agulha e num lance aquilino certeiro, mergulhou na água o anzol. Após uma longa espera percebeu que a linha agitava ainda mais a espuma que se formava ao redor do equipamento. O tempo de espera não havia sido em vão, pois um grande peixe surgiu quebrando o longo silêncio. O pescador retirou com um arranco da garganta do animal o anzol que o fisgou, ferindo-lhe a boca.
Estabanado de tanta fúria o homem relaxou na areia e aproveitou o lindo dia de sol e céu azul, saboreando a vítima.

Rossana ,Cristiane , Micheline, Carmelinda e Magneide


O grupo que ficou com a Prosa Descritiva não entregou a produção e se comprometeu a apresentar no próximo encontro.

Após as apresentações fiz alguns comentários sobre a função social da escrita e o ensino produtivo e reflexivo da Gramática e deixei aberta a fala para avaliar o encontro. Finalizei solicitando que escolhessem um Avançando na Prática e aplicassem em sala de aula para posterior relato no próximo encontro. Alguns já tinham escolhido trabalhar com a Literatura de Cordel, especialmente os professores que lecionam no período noturno, por se tratar de um gênero que aborda temas pertinentes ao cotidiano de jovens e adultos mais maduros.






Oficina Livre – estudando as Unidades 10 e 11

Conhecimento Prévio e Leitura de Mundo, esses foram os temas abordados no 3º encontro, no dia 30 de maio. A intenção era tornar prazerosa a leitura, para tanto foram usados os slides “As letras” e após reflexão sobre o texto questionar: será que os nossos alunos entenderiam a mensagem?
Como era de se esperar as respostas forma unânimes: Alguns trechos eles iriam entender facilmente, pois tem um conhecimento ou uma leitura de mundo, um exemplo é o seguinte trecho:
As letras podem aliviar
WC
Assim as discussões circularam em torno de que trabalhar um texto em sala de aula e conseguir despertar prazer, curiosidade nos alunos exige planejamento com objetivos claros. Um texto pode ser muito interessante e prazeroso para o professor, no entanto chato e sem sentido para o aluno.
Encerradas as abordagens demoramos bastante tempo nos relatos do Avançando na prática. As experiências, de um modo geral, foram animadoras: Segundo os professores a metodologia do Programa facilita a aprendizagem. A maioria escolheu O avançando na prática que propunha um jogo, onde cada grupo teria que descrever um objeto, dessa maneira a tipologia textual a ser trabalhada seria a descrição. Já os professores que lecionam em salas com alunos de mais idade preferiram trabalhar o Avançando que sugeria o estudo da Literatura de cordel. Este foi sem dúvida um momento importante na oficina. A troca de experiência foi estimulante!
Dando continuidade realizamos atividades na TP 3 Unidade 11, o que seria uma espécie de preparação para a Unidade 12.

Oficina 06 – Unidade 12

Machado de Assis e Chico Buarque são os convidados de honra desse encontro.

Os textos Geni e o Zepelim , de Chico Buarque e Um Apólogo de Machado de Assis são os textos da vez:

Geni E O Zepelim
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque
De tudo que é nego tortoDo mangue e do cais do portoEla já foi namoradaO seu corpo é dos errantesDos cegos, dos retirantesÉ de quem não tem mais nadaDá-se assim desde meninaNa garagem, na cantinaAtrás do tanque, no matoÉ a rainha dos detentosDas loucas, dos lazarentosDos moleques do internatoE também vai amiúdeCom os velhinhos sem saúdeE as viúvas sem porvirEla é um poço de bondadeE é por isso que a cidadeVive sempre a repetirJoga pedra na GeniJoga pedra na GeniEla é feita pra apanharEla é boa de cuspirEla dá pra qualquer umMaldita GeniUm dia surgiu, brilhanteEntre as nuvens, flutuanteUm enorme zepelimPairou sobre os edifíciosAbriu dois mil orifíciosCom dois mil canhões assimA cidade apavoradaSe quedou paralisadaPronta pra virar geléiaMas do zepelim giganteDesceu o seu comandanteDizendo - Mudei de idéia- Quando vi nesta cidade- Tanto horror e iniqüidade- Resolvi tudo explodir- Mas posso evitar o drama- Se aquela formosa dama- Esta noite me servirEssa dama era GeniMas não pode ser GeniEla é feita pra apanharEla é boa de cuspirEla dá pra qualquer umMaldita GeniMas de fato, logo elaTão coitada e tão singelaCativara o forasteiroO guerreiro tão vistosoTão temido e poderosoEra dela, prisioneiroAcontece que a donzela- e isso era segredo delaTambém tinha seus caprichosE a deitar com homem tão nobreTão cheirando a brilho e a cobrePreferia amar com os bichosAo ouvir tal heresiaA cidade em romariaFoi beijar a sua mãoO prefeito de joelhosO bispo de olhos vermelhosE o banqueiro com um milhãoVai com ele, vai GeniVai com ele, vai GeniVocê pode nos salvarVocê vai nos redimirVocê dá pra qualquer umBendita GeniForam tantos os pedidosTão sinceros, tão sentidosQue ela dominou seu ascoNessa noite lancinanteEntregou-se a tal amanteComo quem dá-se ao carrascoEle fez tanta sujeiraLambuzou-se a noite inteiraAté ficar saciadoE nem bem amanheciaPartiu numa nuvem friaCom seu zepelim prateadoNum suspiro aliviadoEla se virou de ladoE tentou até sorrirMas logo raiou o diaE a cidade em cantoriaNão deixou ela dormirJoga pedra na GeniJoga bosta na GeniEla é feita pra apanharEla é boa de cuspirEla dá pra qualquer umMaldita Geni

Um Apólogo
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.


A intenção primeira era identificar os critérios de definição para gêneros textuais e fizemos a leitura sobre alguns tópicos que considero importantes:
· além do plano composicional – ou das estruturas lingüísticas –, fatores “exteriores” ao texto: os objetivos, os interlocutores, as relações sociais entre eles, a formalidade e as exigências da situação, etc. Esses fatores são historicamente construídos e , apesar da aparente liberdade na construção dos gêneros, o falante mais atende a “direcionamentos” culturais para suas escolhas do que faz, de fato, valer seu arbítrio.(152 e 153)
· Os tipos textuais, definidos pela predominância das características lingüísticas, compõem o plano composicional dos gêneros: aparecem na forma de organização do texto. Podem servir também como parte da classificação dos gêneros quando são necessários ou ocorrem com muita freqüência em um ou outro.
· De qualquer maneira, é inevitável a articulação entre gêneros e tipos, pois nestes se constróem lingüisticamente aqueles.

Nos encontros anteriores percebi um misto de inquietação e curiosidade e ao mesmo tempo necessidade de relembrar as Escolas Literárias para melhor análise e compreensão textual, sendo assim dinamizei a divisão dos grupos entregando cartões com nomes de algumas escolas e respectivas características. Foi uma confusão. Mas no final deu certo e todos estavam bem familiarizados com o Romantismo, Parnasianismo, Modernismo e Realismo. A tarefa era a seguinte:
Proposta de trabalho usando o texto- Letra da música Geni e o Zepelim de Chico Buarque e Apólogo de Machado de Assis

Questões a serem discutidas no grupo para posterior apresentação

Grupo ROMANTISMO
Enumerar as sequencias tipológicas no Textos Um Apologo
Classificar o texto quanto a tipologia e gênero textual
Grupo REALISMO
Qual característica do Realismo está mais evidenciada no texto Um Apológo?
Qual a semelhança temática entre o texto de Machado de Assis e de Chico Buarque ?
Grupo MODERNISMO
Qual característica do Modernismo está mais evidenciada no texto Geni e o Zepelim?
A qual Tipo e Gênero textual pertence o texto Geni e o Zepelim? Justifique
Grupo PARNASIANISMO
§ O que faz do Texto Geni e o Zepelim ser considerado literário?
§ Apesar do texto Geni e o Zepelim ter rimas, vocabulário um tanto formal ele não se enquadra no Parnasianismo.Por quê?

As observações foram fantásticas e melhor ainda, nesse momento os professores perceberam quão prazeroso é ler e trabalhar de maneira inovadora com textos que muitas vezes parecem extensos ou complexos demais para os alunos.
E ainda melhor foram as produções:

Geni e o Zepelim

Em uma sociedade de costumes requintados surge uma mulher que faz e acontece. Geni, a alegria de uns e o algoz de outros. Muitos passaram pelos braços de Geni: era nego torto, cegos, moleques, detentos, velhinhos a beira da morte e até viúvas. Para ela o local não importava, onde desse pra encaixar Geni estava lá. Diante de tais comportamentos era odiada pela parte que não se beneficiava de seus serviços. Era gente querendo jogar pedra, cuspir, coitada da Geni.
Um belo dia eis que o feitiço vira contra os feiticeiros, a cidadezinha é invadida por um zepelim com um arsenal já mais visto nem mesmo em filmes de guerra. Todos moradores borram-se ao ver descer do zepelim o comandante, uma figura assustadora de tamanho incalculável. O pânico tomou conta da cidadezinha tendo como certeza virarem geleia. Porém um pronunciamento trouxe à esperança no rosto de todos. O comandante diz ter uma mudança de planos. Logo, os moradores abriram um sorriso, mas nunca imaginavam o motivo pelo qual havia feito o comandante mudar seus planos. Em alto e bom som disse repugnar as atitudes daqueles moradores, mas estava disposto a refutar a sua decisão se aquela morena o fizesse gemer á noite toda. Em alto e bom som tom todos começaram a gritar: vai com ele Geni; Bendita Geni. Era prefeito, bispo, pastores, suplicando para que ele se entregasse a ele. Ela pensou em não ceder, entretanto diante de tantos apelos, lambuzou-se com o forasteiro, o fez subir pelas as paredes até que o mesmo partisse.
A cidadezinha foi salva e graças a Geni. Mas após a partida do comandante , era bosta, cuspe, pedra, tudo na cara da coitada. Maldita Geni! Se tu não tivesse dado eles não estariam aqui.
Grupo: WILLIAM, MICHELINE, ERIVÃNIA E ALBÉRIO

Geni e o zepelim
Era uma vez uma mulher que namoradeira que não negava uma noite de prazer, nem aos negros do cais do porto. Seu corpo era propriedade de todos, cegos, retirantes, errante. Era assim desde menina, dava em qualquer esquina, o que ela menos se importava era com o ambiente fosse em uma garagem, numa cantina ou no mato...
Com tamanha fama, Geni era descriminada por aquelas pessoas que não concordavam com sua forma de vida. Sendo assim, repetiam sempre:
_ Joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa pra cuspir, ela dá pra qualquer um maldita Geni.
E pensaram e disseram sempre o mesmo sobre, até que um, eis que surge um Zepelim que abriu dois mil orifícios e deixou a cidade apavorada, pronta para ser destruída, mas dele desceu o comandante dizendo:
_Mudei de idéia. Resolvi explodir esta cidade ao ver tanto horror, mas posso evitar tudo isso, se aquela formosa dama esta noite me servir.
Neste momento as pessoas mudaram o discurso quanto a Geni,dizendo:
_ Vai com ele, vai Geni.Você pode nos salvar, você vai nos redimir...Bendita Geni.
Tanto que imploraram que Geni dominou o asco, entregando-se naquela noite àquele homem repugnante,que a fez de objeto até ficar saciado.
Antes de amanhecer o homem foi embora com seu Zepelim prateado. Ela aliviada por um instante tentou até sorrir, mas foi ao raiar do dia que a cidade tornou a repetir:
_Joga pedra na Geni...Maldita Geni.

Grupo:MARIA CÉLIA, KÁTIA JUMÁRIA,ERIVALDO,CRISTIANA e CÁSSIA



Geni e o Zepelim

Como uma Madalena condenada, Geni era “amada” pelos homens e odiada pelas mulheres. Com seu andar provocante quadris largos e coxas torneadas esbanjavam formosura, num corpo esculpido pela natureza, despertava os mais indecentes desejos.
Assim era Geni, amais bela mulher de vida fácil já encontrada naquela pacata cidade -um tribunal da inquisição,prestes a executá-la por ser tão popular e à frente do seu tempo.Todos a odiavam e a invejavam.Ela era de todos, mas não pertencia a ninguém.
Um dia, vindo de um Zepelim prateado, incumbido de arrasar aquela maldita cidade surge um comandante que se rende aos dotes de Geni.Uma paixão avassaladora que mudaria o destino da cidade,causando também uma mudança brusca no comportamento da população.
Geni,antes desprezada,agora torna-se a heroína de que o povo precisava.A única capaz de salvar a população de um desastre tão iminente.E Geni, foi sim, a salvadora,apesar do asco que sentia.
Apesar de ter salvado a cidade, não foi Geni, capaz de redimir às pessoas.Voltou a ser uma Geni qualquer.

Grupo:MARIA ANUNCIADA, MARIA CARMELINDA e NIELSON

Ave, Geni!
Uma maldita Geni, muito namoradeira, era famosa na cidade pelas aptidões sexuais. Relacionando-se com homens de todos os tipos, preferencialmente os mais humildes por se parecerem com ela. Os negros do mangue eram seus favoritos, assim como os do cais do porto.
Todos os homens que ali moravam, inclusive retirantes tinham acesso ao corpo de Geni.
Desde menina já era afoita, não havia lugar apropriado para se relacionar com qualquer um, e por isso, ficou famosa e discriminada pela sociedade. A população queria apedrejá-la.
Certo dia surgiu um enorme Zepelim pairando sobre os edifícios, com dois mil canhões apontados para a cidade, pois o comandante achando tanto horror e iniqüidade resolveu destroçá-la.
A cidade inteira parou para assistir a cena, mas o comandante, ao ver Geni,propôs evitar o drama caso àquela dama cedesse aos desejos dele.Essa dama era Geni.
Neste momento a maldita virou bendita, tornando-se a salvadora da cidade.
E assim a população fez romaria para beijar a mão de Geni,prefeito, banqueiro e até o bispo louvaram-na.
Comovida, seguiu Geni para cumprir a sina, entregando-se ao comandante numa noite alucinante, para ele.
Quando amanheceu, depois de saciado, o Zeplim partiu e Geni voltou a ser maldita, toda glória caiu por terra e voltou a ser alvo de pedradas e cusparadas.

Grupo:ELIONEIDE e FERNANDA

Terminada a socialização das atividades foram feitos alguns comentários a cerca das seqüencias tipológicas predominantes em cada texto e posteriormente alguns tópicos foram discutidos:
· Tanto os textos considerados literários, quanto os não-literários, são assim classificados por um conjunto de fatores que não podem ser considerados isoladamente.
· Dependendo da função maior que um texto exerce na interação, sua classificação pode variar. Nem o tema, nem a maneira de organizar e explorar o vocabulário podem, por si só, justificar uma classificação.
· Os textos considerados literários põem, em geral, em relevo o plano da expressão, da sonoridade, do jogo de imagens, mas a definição do que seja texto literário, ou poético, pode variar, segundo as escolas literárias.
· Em geral, os textos não-literários (funcionais ou utilitários) têm como finalidade maior a informação e, por isso, aspectos estéticos da linguagem – ou a exploração do plano sonoro ou da linguagem figurada – são considerados em segundo plano.
Finalizamos a oficina analisando os textos:
Cidadezinha qualquer
Quadrilha
Iracema
Parasita Azul
Biografias
A cada análise discutíamos novas estratégias para trabalhar a análise lingüística e a leitura e produção textual.